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Adalbertolândia: o maior tesouro dos parquinhos de São Paulo

Por Gisela Blanco

No último sábado, levei o Luisinho para conhecer um verdadeiro tesouro, um lugar que realmente dá significado a todos os adjetivos que vêm à cabeça quando você pensa nessa palavra. É um parquinho criado por um senhor chamado Adalberto, que aproveitou um terreno de família que fica em frente à sua casa, no Sumaré, para fazer uma área divertida para as crianças. Isso foi há 43 anos. A única “lândia” que é de graça – segundo a placa no próprio parque – sobrevive até hoje muito bem cuidada por seu Adalberto, que abre os portões aos sábados, domingos e feriados. Com as próprias mãos e seus dotes de marceneiro e artista, o publicitário aposentado de 86 anos criou um carrossel, fabricou balanços e gangorra, construiu um mirante. E demarcou trilhas em meio às árvores do terreno que no centro dessa cidade cheia de prédios espremidos viram uma verdadeira floresta. O parquinho é pequeno, é simples, mas é lindo.

Tudo lá é muito singelo, bem cuidado e antigo. O carrossel de madeira já me deixou emocionada só de existir. É tão bonito, clássico e suntuoso (mentira, não é suntuoso, mas eu queria muito usar essa palavra), que dá para imaginar crianças brincando nele em 1969, quando foi construído. Eu, que freqüento muitos parquinhos com meu filho, estou acostumada a encontrar sempre os mesmos brinquedos, feitos em série pelas mesmas empresas. Na Adalbertolândia, a história é outra. E é bem divertida: o Luisinho pedia várias vezes para ir no cavalinho, achando o negócio mais divertido do mundo aquele roda-roda enorme aos olhinhos dele.

Clique aqui para ver no mapa onde fica a Adalbertolândia

Também me chamou a atenção ver o cuidado que seu Adalberto teve de sinalizar a recomendação de idade para cada brinquedo. O Carrossel, até 8 anos. O balanço para bebês, até 2. Outro balanço, pode até 5. E no mirante, até 100.

Dá para sentir que o lugar é cuidado com carinho até nos detalhes mais singelos – e nos toques de modernidade, como os cartazes de filmes colados atrás do balanço para crianças de até 5 anos, provavelmente doados pela locadora de DVDs da esquina. Ótima supresa pro Luisinho, que ultimamente anda vidrado em dragões e assiste o filme “Como Treinar Seu Dragão” quase todo dia. Uma aula de decoração prática aprovada pelos pequenos.

Outras fofuras encontradas por lá: plaquinhas que indicam o caminho da trilha pelas árvores (mas que estavam fechadas por risco de escorregões com a lama da chuva), bonecos de pássaros escondidos pelas árvores, altarzinho para uma imagem de santa que foi abandonada no parque, lixeira que agradece quando você a abre para jogar o lixo dentro, uma galinha que mora solta lá no parquinho (o Luisinho, fã das cocós, pirou). E os dizeres de uma placa que me deixaram com os olhos cheios de lágrimas. Nela, o criador do parquinho diz que fez aquele lugar para passar para as crianças a vivência de dois princípios básicos que estimulam a formação de uma comunidade sadia e justa para todos:

1 – Sempre podemos – e devemos – oferecer alguma coisa para os outros sem pedir nada em troca. (a felicidade que despertamos nos outros vai se refletir em nós mesmos)

2 – Todos podemos – e devemos – viver em perfeita harmonia, independente de cor, religião, nacionalidade, ou poder aquisitivo. (não é muito melhor assim?)

Pode me chamar de chorona. Mas não é bonito que ainda exista gente que pense dessa forma? A gente está sempre reclamando que as pessoas na cidade são egoístas, que ninguém nem dá bom dia pro vizinho. E aí, você um dia percebe que ainda existem no mundo gente como esse senhor: não só dá bom dia, mas nos dá a possibilidade de termos de fato um dia muito bom.

Mas precisei me segurar para não chorar mesmo foi quando o seu Adalberto em pessoa apareceu por ali. Soltei logo a primeira frase que me veio à cabeça quando o vi: “Obrigada, seu Adalberto. Pelo parquinho”. Ele riu e se sentou num banco em frente ao Carrossel em que o Luisinho rodava pela milésima vez. Chamou a galinha que mora lá e ela veio correndo para o seu colo. Eu tentei puxar papo. Disse que achava incrível como ele mantém esse lugar mesmo com a especulação imobiliária e tudo. E ele me falou: “Graças a Deus, nunca precisei vender. Muita gente já me aconselhou a doar o terreno para a prefeitura, que pelo menos assim eu não pagava mais imposto. Mas não faço isso de jeito nenhum. A prefeitura não cuida, vai abandonar tudo, deixar os brinquedos estragarem e a grama crescer. Eu cuido”.

Logo começou a chover e tivemos que ir embora. Mas saí de lá com uma sensação boa que durou o fim de semana inteiro e me fez pensar que ainda existe muita gente boa nesse mundo. Que há esperança para a humanidade. E que parquinhos fazem mesmo muito bem para a saúde (seja física, mental ou espiritual).

E é por isso que a Adalbertolândia é um tesouro tão grande.